O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de três novos inquéritos para investigar a fundo quem realmente estava por trás dos ataques extremistas que depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. A decisão, tomada para responder a um pedido da Procuradoria Geral da República (PGR) feito em 12 de janeiro, visa fechar o cerco contra financiadores e mentores intelectuais. Com esse novo passo, o tribunal já soma sete inquéritos abertos para apurar os eventos violentos do dia 8 de janeiro, todos sob sigilo.
Aqui está o ponto central: a Justiça não quer apenas punir quem quebrou vidraças, mas sim quem pagou as contas e quem planejou a confusão. O pedido de abertura foi assinado por Carlos Frederico Santos, subprocurador-geral da República e coordenador do grupo de investigações. A ideia é criar camadas de responsabilização, separando quem executou de quem instigou.
A divisão dos novos inquéritos: quem será investigados
Para organizar a complexidade do caso, Moraes dividiu as investigações em frentes específicas. Não se trata de um processo único, mas de quatro trilhas distintas (contando com a investigação de omissão) que buscam conectar a base da pirâmide ao topo.
- Inquérito 4920: Focado nos "patrocinadores". Aqui, a meta é identificar quem financiou viagens, hotéis e forneceu auxílio material para que os manifestantes chegassem à capital.
- Inquérito 4921: Voltado para os "mentores". Este processo apura a responsabilidade de autores intelectuais e daqueles que instigaram a multidão a invadir os prédios públicos.
- Inquérito 4922: Destinado aos "executores". O alvo são as pessoas que participaram ativamente dos crimes, mas que, por algum motivo, não foram presas em flagrante no dia do ataque.
Mas a rede de investigações não para por aí. O ministro também determinou a abertura do inquérito 4923. Este é talvez um dos mais delicados, pois foca na suposta omissão de autoridades. Entre os nomes citados estão o governador afastado do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e o ex-secretário de Segurança Pública do DF, Anderson Torres. A pergunta que a Justiça quer responder é: por que a segurança falhou tanto naquele dia?
A inclusão de Jair Bolsonaro e a pressão política
Um movimento que chamou a atenção foi a inclusão do ex-presidente Jair Bolsonaro em um dos inquéritos. A decisão veio após a PGR argumentar que uma publicação feita por ele no dia 10 de janeiro — apenas dois dias após os ataques — questionava os resultados das eleições e poderia ter servido como combustível para a instabilidade.
Curiosamente, enquanto a lupa se volta para Bolsonaro, Moraes arquivou um pedido para investigar Flávio Dino. A movimentação mostra que o STF está filtrando as denúncias para focar no que considera ter lastro probatório imediato. Além disso, três deputados diplomados também entraram na mira por incitação, resultando em prisões preventivas ou monitoramento por tornozeleiras eletrônicas após as audiências de custódia encerradas em 20 de janeiro.
Operação no Espírito Santo: Milícias Digitais e Desinformação
A investigação sobre os atos de 8 de janeiro se ramificou para outros estados, evidenciando que a mobilização não foi local. Em 15 de dezembro, a Polícia Federal deflagrou uma operação no Espírito Santo, resultando em quatro prisões e 23 mandados de busca e apreensão.
A operação mirou a capital Vitória e cidades como Vila Velha, Serra, Guarapari e Cachoeiro de Itapemirim. Entre os alvos estavam os deputados estaduais Carlos Von (DC) e Capitão Assumção (PL). Ambos já foram condenados ao uso de tornozeleiras eletrônicas.
O detalhe mais alarmante dessa frente é a luta contra as chamadas "milícias digitais". Moraes identificou que o site Folha do ES era utilizado para propagar notícias falsas e caluniar adversários para obter vantagem financeira. O proprietário do site, Jackson Rangel, é acusado de usar a plataforma para incitar o ódio. Para rastrear essas conexões, a Justiça autorizou a quebra de sigilo de dados extremamente íntimos, incluindo históricos de Google Fotos, YouTube e até corridas de Uber.
O impacto jurídico e o que esperar agora
A estratégia de Moraes é clara: criar um mapa de conexões. Ao cruzar dados de GPS (Uber), logs de navegação e fluxos financeiros, o STF tenta provar que os ataques não foram espontâneos, mas sim organizados e financiados. Para especialistas, isso muda a natureza do crime de "vandalismo" para "tentativa de golpe de estado" ou "abolição violenta do Estado Democrático de Direito".
As próximas etapas devem envolver a análise dos dados telemáticos apreendidos nos celulares e nuvens de 11 pessoas e uma empresa. Com o sigilo mantido, o público deve aguardar novas fases de operações da PF, que agora têm em mãos a estrutura de quem pagou e quem comandou os atos.
Perguntas Frequentes
Quantos inquéritos existem agora sobre o 8 de janeiro?
Com a abertura dos três novos processos (4920, 4921 e 4922) e a investigação de omissão (4923), o Supremo Tribunal Federal chegou a um total de 7 inquéritos abertos para apurar diferentes frentes dos atos extremistas.
Quem são os principais alvos dos novos inquéritos?
Os alvos são divididos por função: o inquérito 4920 foca em financiadores; o 4921 busca os autores intelectuais e instigadores; e o 4922 foca em executores que não foram presos em flagrante. Além disso, autoridades como Ibaneis Rocha e Anderson Torres são investigados por omissão.
Por que Jair Bolsonaro foi incluído nas investigações?
A inclusão ocorreu a pedido da PGR, baseando-se em uma postagem feita por Bolsonaro no dia 10 de janeiro, onde ele questionava os resultados das eleições, o que é interpretado pelos investigadores como uma possível incitação ou validação dos atos.
O que foi a operação realizada no Espírito Santo?
Foi uma ação da Polícia Federal contra atos antidemocráticos e milícias digitais, envolvendo buscas e prisões de figuras como os deputados Carlos Von e Capitão Assumção, além de investigar o site Folha do ES por disseminação de fake news.
Quais dados pessoais a justiça pode acessar agora?
O ministro Alexandre de Moraes autorizou a quebra de sigilo de dados telemáticos, o que inclui arquivos em nuvem, históricos de exibição do YouTube, Google Fotos e registros de viagens por aplicativos como o Uber.